Economista fala em entrevista sobre perspectivas para economia nesses tempos de crise
Por Paulo Jefferson Barreto
A crise econômica internacional, que abalou as principais economias do mundo, segue criando um ambiente de incertezas sobre os rumos que o sistema financeiro tomará a partir de agora. Nesse cenário, as perspectivas para o Brasil e para a região Nordeste entram na pauta das discussões a respeito dos efeitos que os desequilíbrios da economia mundial podem causar em seus mercados. Segundo o professor e economista, Henrique Marinho, mesmo com o bom momento da economia brasileira, um agravamento da situação global pode acarretar pesadas consequências para o país, colocando em xeque o momento de prosperidade vivenciado pela economia nordestina.
InvestNordeste - As turbulências na economia mundial hoje são um mero reflexo das instabilidades de 2008, ou chegamos a outro patamar? Que diferenças poderíamos apontar entre esses dois momentos distintos da crise internacional?
Henrique Marinho - A crise estabelecida no final de 2010 e que perdura por todo o ano de 2011 pode ser considerada uma consequência da crise deflagrada em 2008. Naquele momento, a crise internacional foi gerada pela famosa “bolha imobiliária” americana, provocada pelo excesso de financiamentos imobiliários naquele país e que foi prejudicada pelo resultado da política monetária de elevação dos juros básicos dos Estados unidos, o que provocou uma cadeia de elevação dos juros dos financiamentos, levando a uma inadimplência dos tomadores de recursos. Acontece que de posse dos títulos de créditos a receber, as instituições financeiras imobiliárias lançavam no mercado internacional outros títulos “lastreados”, denominados de derivativos. Quando os financiados deixaram de pagar, devolvendo os imóveis, a crise foi se estabelecendo nos bancos americanos e contaminando os bancos europeus e do restante do mundo que investiram nesses derivativos. A crise teve um aspecto de financeira, por ter sido inicialmente nos bancos, mas a falta de crédito e as incertezas geradas levaram a economia mundial ao caos.
O mercado financeiro “fechou as portas”, isto é, faltou liquidez. A solução para evitar uma crise mais profunda e para amenizar o efeito recessivo sobre a economia americana e europeia, a solução Keynesiana foi lembrada, ou seja, os governos deveriam implementar políticas fiscais anticíclicas, elevando seus gastos, a maioria financiados pelo aumento da dívida pública e reduzindo impostos. Inicialmente parecia que seria a solução adequada, por ter resultado em efeitos positivos em muitos países, inclusive no Brasil, mas no final de 2010, esses países citados começaram a apresentar dificuldades de “rolar” suas dívidas, provocando a incapacidade de se refinanciar e de pagar as dívidas contraídas anteriormente. Resultando em uma crise que começou como uma crise de financiamentos privados para as famílias e transformou-se em uma brutal crise de dívidas públicas, denominadas de dívidas soberanas.
IN - Fala-se muito em globalização ultimamente, como se a economia global estivesse em uma rede de dependências entre os mercados, mas, afinal, isso conta como ponto positivo ou negativo? Porque se por um lado isso aumenta a cooperação entre os países, por outro colocaria em risco as economias ligadas diretamente a outra em crise, não?
HM - A crise iniciada em 2008 mostrou o que é verdadeiramente a globalização, porque uma bolha financeira no mercado imobiliário americano, ao quebrar o Lehman Brothers no dia 15 de setembro, disseminou rapidamente a crise por praticamente todo sistema financeiro internacional, transformando o desastre financeiro na maior crise econômica depois da grande Depressão de 1929. Se a globalização beneficia os mercados, a interdependência gerada por esse processo harmoniza, também, os problemas. É por isso que a solução da presente crise está encontrando muitas dificuldades porque elas não serão resolvidas apenas salvando a Grécia e os outros países em dificuldades. Como há muita assimetria nas economias da União Europeia, com economias sólidas e credoras como a Alemanha, há outras que não estão tão sólidas porque seu sistema financeiro está comprometido com o não calote grego, como a França. Isso sem contar com as dificuldades da Espanha e Itália e com os problemas políticos do presidente Barack Obama que não consegue implementar sua política econômica de alavancagem da economia americana. A globalização exige soluções compartilhadas globalmente. Todos têm de participar, contribuir e encontrar a solução que seja boa para todos. Parece que finalmente a União Europeia resolveu enfrentar o problema ao convencer os países membros da zona do Euro a elevar o fundo de estabilização, assim como a decisão do Banco Central Europeu em fornecer liquidez aos bancos europeus, a fim de evitar a quebra de bancos com o possível calote grego.
IN - As grandes economias mundiais são as que mais sofrem os efeitos da instabilidade dos mercados. Diante disso, dá pra dizer que estamos passando por estruturação na economia internacional, ou as grandes potências continuarão com a maior fatia do poderio econômico global?
HM - Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética em 1991, o sistema capitalista se consolidou e o liberalismo passou a predominar nas relações econômicas internacionais, com a liderança incondicional dos Estados Unidos. A Europa também se consolidou com a reunificação da Alemanha e a criação da União Europeia. Paralelamente a então segunda maior potência econômica, o Japão, já vivia uma década de recessão. No início do século XXI, o liberalismo prosperou em proporções gigantescas, criando uma economia mundial em constante crescimento econômico com estabilidade de preços. Quanto mais a economia dava sinais positivos, mais os bancos estavam dispostos a financiar a festa; era a “exuberância irracional” descrita por Alan Greenspan, presidente do FED, o Banco Central americano no início da crise. Paralelamente, o Brasil, Rússia, Índia e China, conhecidos atualmente como os Brics davam sinais de potências “emergentes”. O liberalismo dominante entre os países desenvolvidos nesse período fortificou o capitalismo, como se a “mão invisível” de Adam Smith colaborasse para essa constante felicidade. Eis que a crise parece que trouxe um questionamento sobre o liberalismo. Será mesmo que o mercado livre funciona ou será necessária a “mão visível” dos governos corrigindo os exageros dessa exuberância? Claro que não acreditamos no fim do liberalismo, mas, com certeza algo de novo surgirá para “salvar” o capitalismo, talvez o capitalismo mais responsável, menos egoísta, mais humano, menos explorador, mais racional com o meio ambiente, menos destruidor.
IN - No cenário global, o Brasil é um dos países que, apesar de tudo, mais se sobressai no tocante à superação dos distúrbios da economia mundial. É possível conceber isso como um divisor de águas para o país? Analisando o atual momento nacional, podemos dizer que vamos sair mais fortes dessa crise, ou ainda é muito cedo pra isso?
HM - O Brasil aprendeu com as crises da década de 1980, quando passamos por dificuldades das mais variadas: inflação alta, desequilíbrio fiscal, elevada dívida externa, desemprego e muitos outros problemas. As políticas adotadas a partir de 1994 estabilizaram a economia, com a implantação do Real, a lei da Responsabilidade Fiscal, o sistema de metas para inflação, Banco Central independente de fato, mesmo que não de direito, o câmbio flutuante e a formação robusta de reservas internacionais.
A Crise de 2008 afetou o Brasil, mas de forma mais amena, o tsunami da crise internacional virou “marolinha”, mostrando o quanto estávamos com uma política econômica sustentável. A política de crescimento com estabilidade e distribuição de renda proporcionou a ascensão econômica de milhões de brasileiros para o mercado interno. Esses pilares de sustentabilidade econômica são a arma que o país possui para enfrentar a turbulência. O Ministério da Fazenda e o Banco Central estão coordenados e munidos de instrumentos que amenizem os efeitos da crise na economia brasileira.
IN - Em entrevista à imprensa há alguns dias, o ministro Guido Mantega afirmou que o governo pode, se julgar necessário, claro, reduzir mais a taxa de juros e usar as reservas como crédito, para financiamentos, por exemplo, mas será mesmo possível chegarmos a esse ponto? A tendência dos juros é realmente cair daqui para frente, enquanto as reservas poderão ser usadas em massa?
HM - As recentes afirmativas do ministro Guido Mantega tem o papel de mostrar para o mercado brasileiro e internacional que o governo dispõe de mecanismos econômicos para evitar efeitos negativos na economia. Armas existem para se usar quando necessário e a taxa de juros é uma delas.
Se a economia inicia um processo recessivo provocado por contaminação da crise internacional, reduz-se a taxa, fazendo o mesmo com impostos. O Banco Central já se antecipou e iniciou um processo de redução da taxa Selic de 12,5% para 12% na reunião do Copom do final de agosto e pelos pronunciamentos recentes do presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombine, o processo continuará. Se houver uma crise que atinja o balanço de pagamentos, com saídas de capital estrangeiro, que provoque a desvalorização do câmbio, as reservas internacionais poderão ser utilizadas como recentemente, quando a taxa de câmbio atingiu R$ 1,96, vindo cair com uma operação de swap [concessão de empréstimos recíprocos entre bancos, em moedas diferentes e com taxas de câmbio idênticas. O swap costuma ser utilizado para antecipar recebimentos em divisas estrangeiras].
IN - Se considerarmos uma queda gradativa dos juros, como é que ficam as políticas governamentais de controle da inflação, já que a alta taxa de juros é o que, de certa forma, a mantém sob controle?
HM - O principal instrumento de controle da inflação no sistema de metas é realmente a calibragem da taxa de juros. Sempre que a inflação ameaça crescer, eleva-se a Selic para reduzir a demanda agregada e se o efeito é o oposto, o Banco Central reduz os juros. Na última reunião do Copom, apesar da inflação se encontrar acima da meta de 4,5%, o Copom decidiu pela redução, tendo em vista dois argumentos. O primeiro é a expectativa de agravamento da crise internacional que poderá levar as economias desenvolvidas a um longo período recessivo e que poderá provocar um movimento desinflacionário nas principais economias disseminando esses efeitos para as economias emergentes, como Brasil. O segundo é relativo aos índices do IPCA a partir de setembro. Como eles atingiram a média de 0,77% ao mês, no período de outubro de 2010 a abril de 2011 e a expectativa do mercado é a de que esses índices serão bem menores no mesmo período de 2011/2012, com certeza a inflação anual começará a ceder no mês de outubro, chegando a cerca de 5% em abril de 2012. Em resumo, podemos considera inflação sob controle uma vez que a meta de 2011 deverá ser atingida no limite superior de 6,5%, convergindo a 4,5% para o próximo ano.
IN - Os bancos brasileiros apresentaram nos últimos anos faturamentos bastante satisfatórios se comparados aos de países como EUA ou França, mas as perspectivas do mercado apontam pra uma continuação desse cenário, ou a tendência é uma redução nos desempenhos obtidos até agora? O crédito bancário pode ser afetado, ou o governo deverá agir pra impedir isso?
HM - A falta de regulação do mercado bancário internacional foi citada por muitos analistas com uma das causas do descontrole que gerou a crise financeira em 2008. No Brasil não houve quebra de bancos, dois ou três que quebraram nos últimos anos não foram provocados pela crise, mas por problemas patrimoniais gerados por má gestão. O sistema financeiro brasileiro é bastante sólido, porque está sujeito a regras muito rígidas, principalmente com relação às exigências dos acordos de Basileia, que regula os riscos sistêmicos do sistema financeiro. Essa solidez se transforma em resultados positivos para os bancos e como consequência para a solidez da economia brasileira.
IN - A alta do dólar é uma consequência da crise financeira internacional que afeta diretamente o setor produtivo nacional. Nesse sentido, as medidas que o governo vem adotando pra bloquear essa elevação no preço da moeda americana são satisfatórias? E a tendência daqui para frente é aumentar mais, ou isso é só um susto temporário?
HM - A recente elevação da taxa de câmbio do Real em relação ao dólar deveu-se basicamente a redução da taxa Selic, que não era esperada nem foi bem recebida pelo mercado no momento. No entanto, com as atuações do Banco Central, as ações direcionadas ao mercado de derivativos com a moeda estrangeira e outras já estão fazendo com que a taxa retorne ao patamar próximo a R$ 1,75. Nesta sexta-feira, dia 7/11 a taxa fechou em R$ 1,77, retornando a normalidade
IN - Quais as perspectivas para região Nordeste nesses tempos de crise? Alguns analistas apontam que o Sudeste sofre os efeitos da crise econômica até mais que outras regiões, mas isso chega a ser verdade na prática? Os estados nordestinos estão mais preparados nesse momento?
HM - Desde a crise inicial, a região Nordeste vem apresentando resultados superiores à média nacional. Tal resultado se deve, em parte, ao direcionamento da produção industrial ao mercado interno, às políticas sócias de destinação de recurso e de política de salário mínimo e bolsa família, que são mais sensíveis na região por ser essa uma das mais pobres do país. Muitos investimentos públicos e privados como siderúrgicas, refinarias, estaleiros, fábrica de automóveis têm sido instalados nas três principais economias da região: Bahia, Ceará e Pernambuco. A fortaleza do crescente mercado interno ajuda na sustentabilidade da economia, mesmo que a crise se agrave. É claro que se a crise atingir proporções agudas, todos os países serão afetados, inclusive o Brasil e até mesmo a região Nordeste.