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Carlos Henrique Mariz: A energia nuclear no Nordeste e o desenvolvimento socioeconômico da região

Segunda, 08 de Março de 2010 10:37

O representante da Eletronuclear no Nordeste fala sobre a construção das nucleares na região e os impactos socioeconômicos advindos de sua instalação

 

 

O representante da Eletronuclear no Nordeste diz que é necessária a construção de usinas nucleares para atender o crescimento do mercado de energia elétrica na região. “O Nordeste poderá passar outra vez a produzir a sua própria energia”, afirma Mariz. Alagoas, Bahia, Sergipe e Pernambuco são os estados que estão na disputa para a instalação das usinas. Mariz também diz que a energia nuclear é limpa e segura e que o Brasil possui tecnologia suficiente para a construção de nucleares. Ele ainda afirma que os investimentos em uma única usina com potência de 1,1 mil MW é da ordem de US$ 4,4 bilhões, gerando receita anual de R$ 1,3 bilhão em 60 anos.

 

Além dos estados citados, o Ceará dispõe de jazida de fosfato e urânio localizada no município de Santa Quitéria (Sertão Central). O Governo do Estado, as Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) e a empresa Galvani assinaram protocolo de intenções para exploração da Usina de Itataia. O empreendimento está avaliado em US$ 375 milhões. Itataia concentra a maior jazida de urânio do País.   


InvestNordeste - Como está atualmente a energia nuclear no Brasil?
usinas_nucleares_angra_fabiorossiCarlos Henrique Mariz
- Existem duas usinas nucleares em operação no Brasil atualmente: Angra 1, com 657 MW e Angra 2, com 1.350 MW, situadas no município de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Uma terceira usina, Angra 3, encontra-se em construção com data prevista para entrada em operação em 2015, com potência instalada de 1.350 MW. Em 2008, a produção de energia elétrica de Angra 1 e Angra 2 juntas foi de 14 milhões MW/h aproximadamente, o que representa 3,12% do mercado de energia elétrica nacional. Estão sendo previstas mais quatro novas usinas nucleares, duas no Nordeste e duas no Sudeste, até 2030. As do Nordeste serão as primeiras a entrarem em operação, com data prevista para 2019 e 2021, respectivamente.


Qual a utilidade desta energia? Qual o seu risco?
A energia produzida por uma usina nuclear é uma energia com alto fator de capacidade, da ordem de 0,9, e em produção contínua. Num sistema predominantemente hidroelétrico, como o brasileiro, é extremamente importante que haja uma complementação térmica confiável, como é o caso das usinas nucleares. A opção nuclear permite a geração confiável de uma energia ambientalmente limpa, que não contribui para o efeito estufa, e não é afetada pelas variações climáticas. Além disso, a energia nuclear faz uso de um combustível de origem nacional, o que permite minimizar vulnerabilidades no abastecimento e proteção contra a volatilidade dos preços, não estando sujeito a flutuações no mercado internacional. Ocupando uma área pequena, quando comparada com outras formas de geração de energia, as usinas nucleares podem ficar próximas aos grandes centros consumidores, eliminando a necessidade de longas linhas de transmissão. O mundo conta atualmente com 435 usinas nucleares operando, 55 novas unidades em construção e vislumbra-se a expansão através de várias centenas até o ano de 2030. O intenso debate sobre as questões relevantes sobre este tipo de geração de eletricidade frequentemente atribui à questão da segurança nuclear um lugar privilegiado. Os acidentes de Three Mile Island e de Chernobyl são lembrados e usados como aspectos negativos, e em muitos casos, como fundamentais para a não instalação de usinas nucleares.


Chernobyl, frequentemente mencionada, era uma usina que não contava com o envoltório de contenção, e onde várias ações, consideradas anormais e jamais permitidas numa usina nuclear atual foram tomadas. Todas contribuindo para o desfecho do acidente. Three Mile Island, apesar de não ter causado liberação de radionuclídeos ou qualquer dano ao meio ambiente e à população, dispunha de envoltório de contenção, pois transformou a indústria nuclear. Incontáveis melhoramentos técnicos, humanos, organizacionais e regulatórios foram implementados desde então, elevando a indústria nuclear aos atuais patamares de excelência. A indústria nuclear trabalha hoje com uma probabilidade combinada de fusão e falha de contenção de uma a cada 10 milhões de anos - valor absolutamente dentro da faixa de tolerabilidade, equivalentes a riscos de catástrofes cósmicas às quais a humanidade está exposta. E mesmo que ocorra um acidente, existem vários procedimentos para minimização dos impactos. Uma usina nuclear produz energia elétrica que é distribuída no sistema interligado nacional.


Existe ainda um temor por parte dos ambientalistas, cientistas e estudiosos de que as usinas nucleares não sejam uma forma segura de produzir energia. O que tem sido feito em termos de tecnologia para que este pensamento possa mudar?
São axiomas dos riscos das atividades humanas as seguintes verdades: qualquer atividade humana acarreta certa medida de risco; qualquer ser humano, por melhor treinado e educado que seja, comete erros; qualquer máquina, por melhor projetada e construída que seja, não é perfeita.


Apesar destes axiomas, a humanidade se desenvolve cada vez mais rapidamente, lançando mão da tecnologia e de defesas em profundidade para limitar os riscos de seus empreendimentos a valores toleráveis, desde que os benefícios decorrentes justifiquem. Esta é uma regra de plausibilidade presente no cerne da indústria nuclear. O fundamento básico da segurança das usinas é a estratégia da defesa em profundidade. Se algo deve ser protegido, uma, duas ou dezenas de barreiras, de caráter físico, organizacional e regulatório podem ser construídas, preservadas e melhoradas, controlando e reduzindo o risco a valores tão baixos, que equivalem aos riscos de catástrofes cósmicas aos quais a humanidade está exposta.


São seis as classificações das defesas em profundidade das usinas nucleares, cada uma delas podendo ensejar outros níveis de defesa em profundidade e construindo uma rede robusta e extensa de barreiras contra a propagação de um acidente, onde cada uma delas pode, por si só, conter esta propagação. São elas: projeto da instalação, detecção prematura de anormalidades, alarme, recuperação, contenção e plano de emergência.


Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco estão disputando a instalação dessas usinas no Nordeste. Até o momento, qual estado apresentou a melhor proposta?
A Eletronuclear, juntamente com a Eletrobrás, Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Ministério de Minas e Energia vêm desenvolvendo estudos com consultoria do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/ UFRJ) para encontrar sítios nesses quatro estados. O estudo está em andamento e visa apresentar quatro a oito locais, provavelmente dois em cada estado, aptos tecnicamente a receberem centrais nucleares. Posteriormente, esses sítios serão submetidos a uma decisão política para a seleção final, e submetidos para aprovação no Congresso Nacional.


Quais os requisitos básicos necessários para a definição de um melhor local para a instalação das usinas?
A seleção de sítios está sendo realizada com base na metodologia do EPRI – Eletric Power Research Institute, dos Estados Unidos. Três princípios básicos estão sendo observados: Em primeiro lugar, o processo de seleção de sítios deverá considerar diversos sítios possíveis nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. O processo assegura adequadas oportunidades de envolvimento do público. Finalmente, está sendo aplicado de tal modo que os resultados sejam claramente razoáveis para um observador imparcial, baseado em critérios selecionados de modo apropriado.


São cinco os componentes deste processo de seleção:
1. Estrutura do procedimento de seleção de sítios: etapas funcionais requeridas para discriminar a região de interesse até sítios candidatos à licença de instalação; 2. Critério de seleção: critérios que incorporam os requisitos regulatórios nucleares, ambientais e de projeto da instalação, que devem ser considerados no processo de seleção; 3. Critério de quantificação: quantificação da adequação relativa de um sítio em relação a um critério de seleção; 4. Fator de ponderação: desenvolvimento de fatores de ponderação que reflitam a importância relativa de critérios individuais de assentamento, e desenvolvimento de valores compostos de adequação que incorporem as composições de interesse entre critérios; 5. Envolvimento público: desenvolvimento de um processo que integre informação e participação pública no processo de assentamento.


Na fase atual, foram definidas microrregiões nesses quatro estados, tendo sido utilizados os seguintes critérios de avaliação:


Critérios de Saúde e Segurança: disponibilidade de recursos hídricos, movimento vibratório do solo, falhas capazes, falhas superficiais e deformações, perigos geológicos, estabilidade do solo, suprimento de água de refrigeração, temperatura ambiente, inundação, instalações inexistentes, ventos, precipitação, população, dispersão atmosférica e aquíferos.


Critérios Ambientais: ameaças sobre habitats e espécies importantes, áreas alagadas e profundidade do lençol freático.


Critérios Socioeconômicos: efeitos relacionados com a construção e operação, critérios de engenharia e custos: distância de bombeamento e topografia.


Qual o motivo da escolha do Nordeste para a construção dessas usinas?
Com a elaboração do PNE 2030, realizado pela EPE – Ministério de Minas e Energia, ficou caracterizada a necessidade de construção de usinas nucleares para atender o crescimento do mercado de energia elétrica da região Nordeste. Depois da entrada em operação, nos anos 90, da Usina Hidrelétrica de Xingó, no Rio São Francisco, o Nordeste passou a ser uma região importadora de energia elétrica.


Quais as mudanças que devem ocorrer no Nordeste após a instalação das usinas nucleares?
A primeira mudança diz respeito à produção interna de energia elétrica. O Nordeste poderá passar outra vez a produzir a sua própria energia. Segundo, os municípios e a região que instalarem a usina nuclear deverão ter um grande desenvolvimento socioeconômico e cultural.


Quanto está previsto de investimento nessas usinas apenas para o Nordeste?
Uma única usina da ordem de 1.100 MW como estas que estão sendo previstas para serem instaladas no Nordeste, representam investimentos de US$ 4,4 bilhões e deverão gerar receita anual por mais de 60 anos, da ordem de R$ 1,3 bilhão. Duas, seriam duas vezes mais e assim por diante.


Com relação aos subsídios, há previsão de investimentos estrangeiros na construção dessas usinas no Nordeste?
Não está definido neste momento quem serão os parceiros privados na construção dessas usinas. Mas, sem dúvida, poderão conter tanto investimentos privados nacionais quanto internacionais.


O Brasil já possui tecnologia própria para a instalação de usinas nucleares?
Uma das maiores jazidas de urânio do mundo está situada no Brasil, particularmente na região Nordeste. O País domina o conhecimento do ciclo completo de fabricação do combustível nuclear, através da empresa nacional Indústrias Nucleares do Brasil (INB), do Ministério da Ciência e Tecnologia. A Eletronuclear, através de seu quadro de funcionários, tem capacidade técnica, administrativa e gerencial para projetar, construir e operar usinas nucleares. Além disso, a participação da indústria nacional nos empreendimentos de geração nuclear aumentou gradativamente de Angra 1 para Angra 2 e terá uma contribuição relevante (cerca de 70%), no caso de Angra 3, com a maior parte dos componentes e equipamentos complementares sendo colocada no mercado nacional.


Atualmente, governos do mundo inteiro estão investindo em energias limpas e renováveis. E o Brasil ainda pretende construir 30 usinas nucleares até 2060. Qual o principal motivo dessa decisão?
Não sei se o número de usinas a serem construídas no Brasil até esta data é o que você mencionou. Porém, além de tudo que já falei anteriormente, a energia produzida por uma usina nuclear é considerada hoje a de menor impacto no efeito estufa, por não liberar CO2 na atmosfera. E hoje é uma energia defendida pelos ambientalistas no mundo inteiro, e também pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que ordenou o reinício de construção dessa usinas nos EUA por considerar serem elas uma das formas mais limpas de produção de energia elétrica, e com capacidade de ser uma das mais econômicas e confiáveis na geração de energia firme para colocação na base do sistema.

Comentários (1)

Termoelétricas Limpas.
1 Sábado, 06 de Novembro de 2010 01:36
Arnaldo Inácio do Carmo
Nosso mundo e o nosso Brasil , não mais precisa produzir energia eletrica, com base nas mega hidrelétricas, no carvão, óleo, gás natural ou urânio. Hoje, já dispomos do projeto de uma termoelétrica plenamente limpa, que visa o atendimento de todo o mundo, onde não precisamos de água para produção de vapor e com emissão zero de carbono. Esse projeto vem sendo apresentado a todos os empresários produtores de energia elétrica e ao governo brasileiro, bem como, a todos os demais governantes de todo o mundo, pelo sr. presidente da Brazilian Conglomerados Tecnológicos Ltda, -E-mail: arnaldoinacio@yahoo.com.br

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