Cidadãos de todo mundo não confiam totalmente nas empresas que chegam aos seus mercados
Enquanto os manifestantes antiglobalização mantêm o hábito de protestar contra qualquer suspiro do G8 e do G20 – como aconteceu de novo nas ruas de Toronto até domingo – os cidadãos, mundo afora, vivenciam intensamente um grande paradoxo da economia moderna. Ao mesmo tempo em que acreditam que a globalização e a expansão do comércio são fatores positivos para suas economias, não confiam totalmente nas empresas que chegam aos seus mercados. É o que aponta pesquisa da Ipsos divulgada quinta-feira passada.
O paradoxo está expresso nos números. Enquanto 66% dos cidadãos entrevistados em 24 países (que, juntos, representam 75% do PIB mundial) classificam a globalização como “uma coisa boa” para todos e 88% concordam com o comércio internacional, 69% acreditam que algumas empresas são mais poderosas que o Governo e 74% acreditam que as grandes corporações têm muita influência sobre as decisões governamentais.
Mesmo acreditando que o investimento de empresas estrangeiras é fundamental para o crescimento econômico, a maioria das pessoas nutre uma espécie de desconfiança sobre os forasteiros cheios de dinheiro que buscam oportunidade especialmente nos países em desenvolvimento. De acordo com o Ipsos, apenas 35% pensam que o CEO da empresa fala a verdade. Como consequência dessa impressão, outros 39% dizem que o Governo deveria restringir o investimento das empresas estrangeiras em seus países, mesmo que isso signifique menos empregos criados.
O fato é que as pessoas temem a influência que os megainvestidores teriam sobre suas economias, se não houvesse fiscalização ou regulação. Por isso, acham que os governantes deveriam ter acesso completo às informações das empresas privadas com que fazem negócio. Também deveriam ser mais agressivos ao regular as atividades das corporações, tanto as nacionais quanto as multinacionais. Resumo da ópera: a maioria dos entrevistados tem a firme opinião de que o Governo deveria controlar grandes linhas de produção e os preços dos alimentos básicos e serviços no seu país. É... de bobo, o cidadão do mundo não tem nada.
A saber
A pesquisa do Ipsos é a 9ª onda do Global@dvisor, realizada entre 12 e 21 de maio de 2010. Os países pesquisados são Argentina, Austrália, África do Sul, Bélgica, Brasil, Canadá, China, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Hungria, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Polônia, Rússia, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Espanha, Suécia, Turquia e Estados Unidos.
>> Foram entrevistados 18.624 adultos entre 18 e 64 anos da Europa e Canadá, e 16 e 64 anos dos demais países. Total de 1mil pessoas participaram em uma base país a país via Painel Ipsos online, com exceção da Argentina, Bélgica, Indonésia, México, Polônia, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Suécia e Turquia, cada um com amostra de 500 pessoas.
Por falar em Toronto
Os encontros entre os líderes mundiais do G20 mais G8, em Toronto, chegaram ao fim com alguns consensos. Pelo menos, os inevitáveis: é preciso regular o mercado com firmeza; os países, especialmente os europeus, não podem nem pensar em não reduzir seus déficits fiscais; e os emergentes não serão penalizados por um crescimento mais lento, conveniente apenas para o Velho Mundo. É o que está oficializado na Declaração de Toronto. O documento foi assinado no domingo, último dia da cúpula canadense, e será ratificado no mês de novembro, em Seul, Coreia do Sul, onde acontecerá a próxima reunião dos líderes.
>> De todas as conclusões que os observadores podem tirar, uma delas prepondera: os países em desenvolvimento saem fortalecidos de Toronto. Todas as suas propostas foram contempladas e, de quebra, ficou ainda mais evidente que o G20 ganhou a condição de protagonismo no cenário político-econômico internacional. Mas isso não é de graça. A recuperação mundial, depois dos estragos da crise dos subprimes, só foi possível graças à pujança dos mercados internos dessas nações. Ou alguém acha que a condição de perdulário dos Estados Unidos ou a alquebrada Europa seriam capazes deste feito? O triunfo dos emergentes é legítimo e nada mais natural do que eles assumirem de fato e de direito seu papel na reformulada globalização pós-crise.
CAIXA PRETA
Os altos e baixos da economia mundial, os ciclos que tomam conta dos mercados e as crises que assustam desde os gênios da Academia aos magos financeiros – como a das hipotecas norte-americanas, que espalhou pânico financeiro aos mercados a partir de setembro de 2008 – têm uma espécie de timoneiro. Essa última tsunami, a dos subprimes, promoveu uma troca de papéis: o antes todo-poderoso G8 (formado pelas sete nações mais ricas do Planeta, mais a Rússia) teve que ceder seu lugar ao G20, grupo protagonista da nova economia mundial, formado pelos países em desenvolvimento como Brasil, China, Índia e tantos outros responsáveis pelo movimento à frente da economia mundial nos últimos dois anos.
>> Este grupo tem encontros periódicos para traçar ou consertar os rumos dos mercados. A mais recente cúpula do G20 (mais G8) aconteceu até domingo, 27, em Toronto, Canadá. Na pauta, a reformulação do sistema financeiro, a redução dos déficits públicos, especialmente dos países europeus, e uma política desenvolvimentista que garanta o ritmo de crescimento dos países emergentes.
>> O G-20 foi criado em 1999 depois da crise financeira asiática ocorrida dois anos antes. Presentes aos encontros, ministros da fazenda e presidentes de bancos centrais dos países participantes. Dependendo da gravidade da crise, os presidentes e líderes dos países também participam. Tem sido assim, desde que a bolha explodiu. Em 2008, os líderes do G-20 se encontraram pela primeira vez, em Washington (EUA), para coordenar uma resposta à crise econômica mundial. Toronto é o quarto encontro do G20 – os outros dois foram realizados em Londres (abril-2009) e Pittsburgh (setembro-2009). O próximo encontro está marcado para Seul (Coreia do Sul), em novembro deste ano.
ECONOMIA REAL
Marca de solidariedade
A marca cearense Dona Florinda faz jus ao DNA de empresa responsável ao engajar-se à campanha SOS Alagoas e SOS Pernambuco. A empresa doa 6 mil peças de roupa para os desabrigados, com o apoio dos representantes dos dois estados. O objetivo é tentar amenizar o sofrimento das famílias. A doação será entregue nas sedes da Defesa Civil. A iniciativa surgiu de Fátima Brilhante, diretora do grupo Araújo e Brilhante, e conta com parceiros como a Transportadora Cinco Estrelas, que leva a doação sem custos nesta terça, dia 29, com previsão de entrega ainda essa semana.
Sobre futebol
E já que só se respira futebol em tempos de Copa do Mundo, vale a informação: o Shopping Del Paseo fechou parceria com o time italiano Milan para a divulgação da sua colônia de férias oficial de futebol, a Milan Camp Junior. Até esta quarta-feira, 30, no piso L1, as crianças podem se divertir com a brincadeira do chute ao gol. Quem acertar ganha 10% de desconto na inscrição da colônia de férias e, por meio de um campeonato, concorre a inscrição totalmente grátis. Desde 2005 no Brasil, o Milan Camp Junior acontece pela segunda vez em Fortaleza, reunindo meninos e meninas de 7 a 15 anos nas próximas férias de julho, no resort Porto D’Aldeia.
TUDO É ECONOMIA
A Bolsa de Valores de Políticos (Bovap) é uma daquelas provas incontestáveis da criatividade do brasileiro. Neste caso, dos pernambucanos. É que a corretora de valores Souza Barros, com sede em Recife, criou um pregão com ações dos principais pré-candidatos a cargos políticos em Pernambuco. Até o início dessa semana, já estavam contabilizados 5 mil investidores cadastrados, movimentando 170 milhões de UVPs (Unidades de Valor Político), moeda fictícia utilizada nas transações.
>> A Bovap quer promover e incentivar a prática de análise e questionamento político, além da experimentação do sistema de corretagem via Home Broker, em plataforma similar aos modelos oferecidos para negociações de cotas de ações de empresas via internet. A alta e baixa das ações relacionadas aos políticos oscilam de acordo com a lei da oferta e procura, somada às atitudes e informações sobre cada um, conforme a opinião dos traders. As transações indicam quanto cada político vale na opinião das pessoas.
>> No pregão, estão os políticos que figuram nas principais pesquisas de intenção de voto ao governo de Pernambuco, no período de reservas de IPOs (oferta inicial de ações, em inglês). São 200 mil ações de cada um, ofertadas aos valores que seguem: Eduardo Campos, do PSB, a UVP 10,95; Humberto Costa, do PT, a UVP 14,00; Jarbas Vasconcelos, do PMDB, a UVP 24,60; João Paulo, também do PT, a UVP 17,80 e Raul Jungmann, do PPS a UVP 16,88.
>> A definição do valor individual dos políticos se dá por meio de entrevistas na qual a população aplicou notas de um a 10 sobre três características de cada candidato: ética, histórico político e realizações. Se o caro leitor-internauta quiser conhecer o pregão mais de perto, basta acessar www.bovap.com.br.
PENSAMENTO ECONÔMICO
“Se você colocar dois economistas em uma sala e pedir sugestões sobre um dado assunto, você terá pelo menos duas opiniões diferentes. Se um deles for Keynes, você terá pelo menos três opiniões diversas.”
>> Pensamento atribuído ao lendário líder britânico Winston Churchill. Convenhamos, leitores-internautas, a análise econômica pressupõe a projeção de cenários. Churchill não precisava ser tão cruel com nossos amigos economistas.