Nordeste tem um mercado consumidor potente e talentos econômicos
A Região Nordeste está avançando e pretende caminhar ainda mais rápido na direção do crescimento econômico. Tem um mercado consumidor potente, talentos econômicos específicos, muitas demandas reprimidas, mais dinheiro circulando para atendê-las e um celeiro de oportunidades de investimento. Com 28% da população brasileira, são 54 milhões de pessoas aptas a ir às compras e prontas para manter a escrita de crescer mais que o País – correndo, assim, para tirar a imensa diferença que persiste entre esse pedaço do Brasil e suas demais regiões.
Para entender o cenário é importante perceber que a virada do Nordeste não ocorreu como resultado de um processo, com fases ou planejamento. É conjuntural e se dá em salto, surfando a onda desenvolvimentista adotada nos últimos anos no Brasil e prestigiada por várias economias, depois da crise internacional iniciada em setembro de 2008. Enquanto caminha com suas próprias pernas, a região absorve ao máximo os efeitos da transferência de renda e do investimento público (leiam-se, respectivamente, Bolsa Família e PAC). Mesmo assim, ainda responde por apenas 14% do PIB nacional.
A razão do descompasso está, em grande parte, na infraestrtura – ou falta dela. Aí residem alguns gargalos relevantes da economia nordestina. Um dos mais significativos deles é a logística. Um emblema disso aconteceu na última semana. A safra recorde de 65,1 milhões de toneladas de soja do Maranhão não pôde ser escoada por falta de estrutura do porto de Itaqui – cuja modernização só deve ficar pronta em 2012. Mas o problema não é exclusividade maranhense. A ineficiência ocorre em níveis e motivações diferentes, é bom que se diga, em praticamente todos os portos da região.
O exemplo que a Coluna apresenta nesta segunda-feira serve para ilustrar o que se pode chamar de espontaneidade do crescimento regional. Aos fatores intrínsecos do seu avanço (demandas a serem atendidas, mercado interno forte e vocações econômicas diversificadas), somem-se a transferência de renda, o dinheiro do PAC e, infelizmente, a ausência de um plano de desenvolvimento regional. A assimetria entre o Nordeste e o resto do País precisa ser eliminada. E, caros leitores-internautas, isso não se dá apenas com o esforço unilateral da região ao aproveitar as circunstâncias. O Brasil continua devendo políticas públicas que comecem, com atraso secular, a reduzir a desigualdade regional. Ao Nordeste cabe cobrá-las. Diariamente.
A SEMANA
O monstro soluçou
A semana começa sob o impacto da alta nos preços de janeiro. O avanço de 0,75% do IPCA (índice de Preços ao Consumidor Amplo), no mês passado, puxou para 4,59% a variação positiva dos últimos 12 meses e assustou o consumidor brasileiro – escaldado com o dragão inflacionário. Mas antes de sucumbir ao medo, vale uma reflexão. Em janeiro, essa pressão sobre os preços já é tradicional. São muitos gastos com data de vencimento no primeiro mês do ano – impostos, despesas com material escolar, contas de Natal etc. É o efeito sazonal, como gostam de classificar os economistas.
Aliados a estas características, aparecem outros fatores que não estavam previstos. Entre eles, as chuvas nas regiões Sudeste e Sul (que elevam o custo dos alimentos ao prejudicar as safras), o calor absurdo que faz este ano em todo o País (responsável pelos recordes de consumo de energia elétrica) e, por fim, a disparada no preço do álcool (motivado pela sedução da cotação mais alta do açúcar no mercado internacional e pela entressafra da cana).
No que compete ao Governo Federal, o Comitê de Política Monetária (Copom) já sinalizou estar atento aos movimentos inflacionários ao manter a taxa Selic (dos juros básicos brasileiros) em 8,75%. Se precisar, na reunião de março, o Copom eleva os juros como forma de conter os ímpetos do dragão. Portanto, pelo menos à primeira vista, a inflação não está fugindo ao controle. E, embora pese no bolso neste comecinho de ano, é só mais um soluço do monstro que parece não ter recuperado o status de “indestrutível”.
Depois do dragão, o leão
Já está liberado o segundo lote de declarações do Imposto de Renda Pessoa Física que caíram na malha fina de 2008 e 2009. A relação dos beneficiados está disponível na página da Receita na internet (www.receita.fazenda.gov.br). Outra opção é consultar pelo telefone 146. O dinheiro chega aos bancos assim que acabar o Carnaval, no dia 17 de fevereiro. Segundo dados da Receita Federal, serão creditadas restituições de 2009 para 71.421 contribuintes, com o valor corrigido em 7,44%. No lote de 2008, 14.447 contribuintes terão crédito com correção de 19,51%.
ECONOMIA REAL
O que a Europa quer
Os países europeus que compõem a União Europeia estão muito interessados no Nordeste brasileiro. Na mira dos investidores do Velho Mundo, estão a indústria naval, as energias limpas (eólica, solar, biodiesel e biomassa), o mercado imobiliário e a inovação industrial. Neste novo cenário, quando vão avaliar as possibilidades nacionais, os tomadores de decisão europeus colocam o Brasil num patamar diferente dos demais países da América Latina. E olham o país como um todo e não apenas o eixo Sul-Sudeste – e o pré-sal. “O Nordeste apresenta muitas possibilidades para os investidores europeus”, confirma o conselheiro de Ciência e Tecnologia da Comissão Europeia para a América Latina, Angel Landabaso.
Em entrevista exclusiva à Coluna, em Brasília, Landabaso expõe o novo cenário no qual o Brasil é disputado tanto pela União Europeia como por gigantes como a China. “Hoje, o seu país está noutro patamar, diferente dos outros da região – onde os investimentos europeus são ‘generosos’. O Brasil passou a ser um parceiro no crescimento global”, define Landabaso. Sobre a concorrência com a China, o conselheiro da UE responde à provocação da Coluna: “O que a China tem que pode vencer os europeus? Dinheiro”.
Meio circulante
O Banco Central apresentou as novas cédulas de real à população brasileira. São notas de melhor qualidade e com mais dispositivos de segurança. Da família antiga foram mantidas as cores e os animais. Mudaram os tamanhos: quanto menor o valor, menor o tamanho – a exemplo do que acontece com o euro. Mas não é preciso correr para trocar o dinheiro velho pelo novo. A nova série entrará em circulação gradualmente até 2012, e as notas em circulação continuam valendo até a substituição integral.
Tudo é economia
Da série Tudo é Economia, a Coluna lembra o aniversário da Revolução de 1848, agora em fevereiro. A série de movimentos teve como cenários vários países da Europa e ficou conhecida como a Primavera dos Povos. O eixo central dos protestos foi a polarização entre a burguesia e o proletariado. Nessa época também foi lançado um dos mais importantes tratados econômicos da história, o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels. A saber: a insatisfação eclodiu depois de políticas fracassadas que resultaram em crises econômicas em várias nações do Velho Mundo.
PALAVRA DO INTERNAUTA
Eis a questão
O leitor-internauta da Cenário, João Vitor, de Pernambuco, quer saber qual é a fonte de valorização do açúcar. Ele pergunta: “A fonte é industrial ou especulativa?”. Propõe, ainda, a seguinte discussão: “Controlar o mercado ou incentivar o livre mercado – eis a questão”. Os questionamentos de João Vitor vieram em função da nota “Álcool ou açúcar: eis a questão”, publicada na Coluna de segunda-feira passada.
Bom, João Vitor, a valorização do açúcar como commodity é resultado não de um fator isolado. Depende de condições de safra, custos de produção, precificação, entre outros. Mas um deles prepondera, sim. Trata-se da primeira de todas as leis do mercado – a oferta x procura. O açúcar é uma mercadoria muito procurada por vários países que não o produzem. Por isso, seu preço aumenta no mercado internacional. No caso do açúcar, a valorização se dá muito em função da menor oferta frente à demanda crescente. E, se é assim, não se pode negar que essa circunstância acaba favorecendo a ação especulativa própria do mercado de derivativos.
Com o álcool não é tão diferente. O processo de beneficiamento – desde a plantação, subsídios ou políticas de incentivo à produção, colheita, fabricação – é bastante importante na formação do preço. Mas a oferta x procura também pesa. Um exemplo? Na entressafra, o álcool combustível fica muito mais caro porque há menos matéria-prima disponível para a indústria processar.
Quanto ao controle de mercado, álcool e açúcar fazem caminhos diversos. O primeiro sofre alteração de preço no mercado interno e os combustíveis, nas refinarias, têm preço administrado – lembrando que, nas bombas, o preço é livre. Mas como commodity, o açúcar não pode sofrer nenhum tipo de controle por ser negociado no mercado internacional, nas bolsas de mercadorias e futuros.
PENSAMENTO ECONÔMICO
“O diabo é que a nossa inflação não é de demanda ou de custo. É inflação de chuchu mesmo."
> Pensamento do engenheiro civil, especialista em Economia, estudioso da Matemática Pura, ex-ministro da Fazenda, na Ditadura Militar, e seguidor do economista liberal Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen. A declaração data dos anos da hiperinflação (segunda metade da década de 1980), mas vem bem a calhar com a alta nos preços dos hortifrutigranjeiros atingidos pelas chuvas de janeiro.
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