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CENÁRIO: Do outro lado? Só se for inteiro

Por Ana Cristina Cavalcante
Segunda, 01 de Março de 2010 09:00
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Sem aparar as arestas da desigualdade, nenhuma economia atinge a sua plenitude

 

 

O Brasil vive um momento único em sua história. Avança sob o ponto de vista econômico, descobriu recentemente que é dono de um tesouro energético incalculável – o pré-sal –, usufrui de segurança política, é a bola da vez na atração de investimentos estrangeiros (inclusive para o setor produtivo, com o crescente Investimento Direto Estrangeiro – IDE) e exerce um papel de liderança regional.


Em dezembro, na Cúpula das Nações Unidas para o Meio Ambiente – a Cop-15, realizada na capital dinamarquesa, Copenhague, os chefes das nações mais ricas do mundo sugeriram retirar o Brasil do grupo dos países em desenvolvimento e “elevá-lo” ao rol das nações ricas. A descrição não poderia ser melhor.  É isso mesmo que ocorre no País, hoje. Talvez tenhamos deixado no passado a condição de país do futuro... Quem sabe?


Embora o cenário pareça estranho para o cidadão que estava acostumado às notícias de uma economia combalida, ele é verídico. O Brasil mudou de patamar, sim! Mas, pelo menos por enquanto, apenas uma parte do País atingiu esse status.  Suas assimetrias não permitem que vá inteiro para o outro lado. Enquanto cresce, também expõe suas desigualdades com mais veemência.


Acontece por aqui algo parecido com o que ocorre na Europa, hoje. A crise vivenciada pela Grécia é um emblema dos efeitos ruins que podem causar as diferenças econômicas. Como estado-membro da União Europeia e integrante da Zona do Euro, o berço da civilização ocidental passa por terríveis dificuldades. A ponta do iceberg – o imenso déficit público – revela a estagnação da economia, agravada pela crise internacional. Nem a força do bloco europeu tem sido capaz de debelar a crise grega.


A Coluna recorreu a esta comparação para dizer (repetir, a bem da verdade) que nenhum crescimento se dá apenas em parte. Nem aqui, nem na União Europeia. Para passar para o outro lado, o Brasil terá que corrigir suas injustiças históricas e colocar no mesmo lugar do pódio todas as suas regiões. Do mesmo modo que a Europa terá que recuperar a economia grega, trazê-la para o nível dos demais países e, a partir daí, seguir com seu plano de hegemonia econômica. Sem aparar as arestas da desigualdade, nenhuma economia atinge a sua plenitude. Ou crescem por inteiro, ou ficam pelo meio do caminho apagando incêndios. Simples assim.


ECONOMIA REAL


Navegar é preciso
sergio_machado_17_03A revitalização da indústria naval brasileira virou notícia no Velho Continente. A revista britânica Fairplay trouxe matéria de capa, em sua edição de janeiro, sobre os novos e promissores rumos que o setor está tomando. O porta-voz das boas notícias é o presidente da Transpetro, o cearense Sérgio Machado.


A matéria enumera os desafios a serem superados, em cenário no qual o Brasil é classificado não mais como terceiro-mundista mas, sim, como importante player global.  Ao mesmo tempo, a revista aponta as vantagens competitivas do país dono do pré-sal.


Em conversa com a Coluna, no último sábado, Machado destacou o fortalecimento do Brasil nesta nova conjuntura. “O Brasil não é mais um país pobre”, atesta. Disse, também, que a retomada da indústria naval contribui para acelerar o desenvolvimento econômico brasileiro, assim como a descoberta do pré-sal. Em tempo: a Fairplay é a publicação especializada mais importante do setor, em todo o mundo.


Passo a passo
Uma das queixas históricas a respeito da economia brasileira sempre foi o baixo investimento público. Outra reclamação constante – e relacionada à primeira – é a altíssima carga tributária nacional. Um governo atrás do outro sempre teve que lidar com essas duas legítimas reivindicações da sociedade. Mas um recorde batido pelo Governo Federal no ano passado parece responder, pelo menos em parte, aos pleitos.
 

A Ong Contas Abertas apurou que, em 2009, os recursos originários de impostos investidos pelo governo Lula bateram o recorde de R$ 30,2 bilhões. É o maior valor dos últimos 15 anos e bate a melhor marca anterior, registrada em 1998, quando a gestão de Fernando Henrique Cardoso atingiu R$ 25,9 bilhões.


E como os tempos são de pós-crise, eleições e preparação para sediar uma Copa, a expectativa é de novo recorde este ano. Estão sendo projetados gastos de R$ 46 bilhões com recursos arrecadados por meio dos tributos e mais R$ 94,4 bilhões a serem investidos diretamente pelas estatais.


Tomara! A propósito disso, a Coluna lembra: o bom desempenho no ato de investir é mais que obrigação do Governo e a pressão exercida sobre ele tem razão de sobra para existir. Afinal, só estabilidade não basta para garantir o desenvolvimento econômico sustentável. É preciso dar todos os próximos passos.


Tudo é economia
santiago_chileBem que o título da nossa seção Tudo é economia de hoje poderia parafrasear a canção e dizer que o Haiti não é no Chile. Com o terremoto de quase nove graus na Escala Richter, na madrugada de sábado, o país andino experimentou a amarga sensação de tudo ruir, literalmente. Mas, como o Haiti realmente não é no Chile, nem tudo ruiu. E a razão disso é econômica! A nação chilena é uma das mais bem-sucedidas da América Latina. Apesar de pequena, a economia desse país consegue fazer o que todas deveriam: aliar o crescimento de seu mercado ao desenvolvimento social da população.


Com um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) fantástico, o Chile planejou infraestrutura adequada às suas condições naturais. Assim, ter seu território localizado bem na margem de uma placa tectônica não representa mais, nestes anos 2010,  a devastação que o Haiti, por exemplo, teve que vivenciar há pouco mais de um mês. Ou, numa comparação mais emblemática ainda, os efeitos de hoje estão muito distantes do estrago provocado por outro grande terremoto no Chile mesmo, em 1960 – quando sua realidade econômica era diferente.


É verdade que os terremotos do Chile e do Haiti provocaram a perda de muitas vidas. E esse é um prejuízo impagável. Mas também é fato que a conjuntura socioeconômica de um país pode blindá-lo não só de ataques especulativos ou bolhas hipotecárias. Pode proteger as pessoas, o bem econômico mais precioso de todos, da fúria da natureza que, com toda razão, anda bem zangada com todos nós.

 
PENSAMENTO ECONÔMICO


“É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer.”


>> Já que a Cenário de hoje fala sobre a Grécia, vale o pensamento do mais famoso dos gregos: Aristóteles. A frase aristotélica é um bom ensinamento para o Brasil que pode, enquanto cresce, aprender a crescer.

Comentários (1)

Qualidade
1 Quarta, 03 de Março de 2010 17:42
Leandro Campos
Parabéns pela coluna... cada dia melhor...

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