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Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

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CENÁRIO: Da integração e das desigualdades - Parte 1

Por Ana Cristina Cavalcante
Segunda, 23 de Agosto de 2010 09:00
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'Antes de pagar o preço da construção de um bloco sul-americano, o Brasil precisa cicatrizar a ferida aberta da desigualdade'

 

 

The Earth Is A World
The World Is A Ball
A Ball In A Game
With No Rules At All*

 

globalizaoO mundo mudou desde que virou uma grande aldeia, integrada por relações cada vez mais imbricadas e consolidadas. Desde o começo dos anos 1990, do século passado, vivemos sob uma conjuntura muito clara: o relacionamento entre mercados e nações. É a globalização, processo mais identificado com a economia, mas que também é, por natureza, político e social. Se, por um lado, o contexto econômico traz para o nosso dia a dia os resultados práticos de acordos multi ou bilaterais; por outro, é a integração política e social que nos leva a achar impossível viver sem a internet! É... A rede criada nos laboratórios militares figura como mais uma prova cabal de que estamos inexoravelmente inseridos num grande contexto comum.


A introdução um tanto filosófica é só para tocar numa questão muito identificada com este terceiro milênio. Trata-se da integração regional, à moda do Velho Mundo, como a União Europeia; ou à sul-americana, com o Mercosul e a Unasul.  Um processo amplo que demanda tempo, concessões e vontade política. O Seminário Internacional e Workshop para Jornalistas “Novos caminhos para a integração regional: o projeto da Unasul” reuniu especialistas nacionais e de países como Alemanha, Argentina, Paraguai e Guiana para, ao lado de um grupo seleto de jornalistas do Ceará e de Pernambuco, debater os rumos da América do Sul sob a perspectiva da cooperação.


A pauta usou o projeto da Unasul, ainda em curso, como eixo para uma discussão qualificada sobre agenda econômica, política externa, segurança, infraestrutura e energia. Ao fim dos trabalhos, uma conclusão ficou muito clara para esta colunista: a integração país-país não terá êxito se, internamente, o Brasil continuar desintegrado. A desigualdade doméstica é argumento poderoso contra as concessões econômicas que o Brasil terá, necessariamente, que fazer para que tanto Mercosul como Unasul virem uma realidade.


Está carregada de sentido a pergunta que geralmente se faz no debate das razões de levar a integração adiante. O questionamento é bem representado no exemplo dado pelo embaixador José Botafogo Gonçalves: “Por que colocar dinheiro na Bolívia e não no Piauí?” Ele mesmo responde: “Porque a integração dará recompensas econômicas ao Brasil no longo prazo”. Algo como perde-se agora para ganhar depois. O problema é que a desigualdade brasileira não pode esperar o bolo crescer, como se pregava na época do milagre econômico da ditadura militar.


Há urgência na correção das desproporções internas. O Piauí, citado por Botafogo, nem mesmo os mais desenvolvidos Ceará, Pernambuco ou Bahia podem esperar. O Nordeste não dispõe de quatro ou cinco gerações até que a integração funcione plenamente. Antes de pagar o preço da construção de um bloco sul-americano, o Brasil precisa cicatrizar a ferida aberta da desigualdade.  Afinal, se o mundo é uma bola*, os efeitos da injustiça social serão sentidos por todos da aldeia global.  E não apenas no Piauí.


A jornalista viajou a Recife a convite da Fundação Konrad Adenaeur.


*Citação da música The Game, do grupo  inglês Echo & The Bunnymen


Brasil imperialista?
Para integrar é preciso reduzir assimetrias. Essa é a lição que a União Europeia ensinou com seu modelo. Como lá, aqui também o Brasil, no papel de maior economia da América do Sul, terá que bancar os custos da integração regional. Não há como negar as perdas nos cofres nacionais que virão a reboque da formação do bloco. O mesmo aconteceu (e acontece) com a Alemanha, no processo europeu. Basta ver o recente exemplo do fundo criado para salvar Grécia, Espanha e Portugal da crise. Na prática, a integração se viabiliza na decisão de os mais ricos patrocinarem países com economias menores e vulneráveis.


O tamanho da economia do Brasil e sua posição de liderança regional trazem um efeito colateral: vão transformá-lo na Alemanha deste lado de baixo do Equador. O País é visto como imperialista no contexto regional. Isso é inevitável porque somos mesmo a maior economia da América do Sul. Por essa condição, deve pagar a conta praticamente sozinho, já que nem mesmo los hermanos argentinos têm cacife para tal. Mas essa não é apenas uma decisão política; é dever constitucional. “Nossa Constituição determina a integração latino-americana. É uma obrigação. Ou mudamos a Constituição ou a cumprimos”, ressalta o embaixador José Botafogo Gonçalves.


Não se pode navegar contra a maré da integração. Mesmo que ela tenha sido posta em xeque pela crise dos subprimes. Ou o caro leitor-internauta esqueceu que foram os mercados internos que salvaram o mundo da falência? Apesar das imensas dificuldades dos últimos dois anos, a globalização envergou, mas não quebrou. E, no mundo global, só se sobrevive integrado. Mas, antes de pagar a conta do vizinho, é fundamental cuidar bem do orçamento doméstico.


Debate qualificado
O Seminário Internacional e Workshop para Jornalistas “Novos caminhos para a integração regional: o projeto da Unasul” aconteceu em Recife, quinta e sexta-feiras (dias 19 e 20). Foi comandado pela Fundação Konrad Adenaeur e a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). A pauta usou o projeto da Unasul, ainda em curso, como eixo para uma discussão qualificada sobre agenda econômica, política externa, segurança, infraestrutura e energia.


Participaram os embaixadores brasileiros José Botafogo Gonçalves, presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais; Rubem Antônio Corrêa Barbosa, assessor especial para Assuntos Internacionais do Ministério de Minas e Energia; os embaixadores Fernando Petrella, do Centro Argentino de Relações Internacionais; e Harry Narine Nawbatt, representante da presidência pro-tempore da da Unasul, que está com a Guiana; além do embaixador da União Europeia no Brasil, João Pacheco.


Também estiveram lá o assessor de Relações Internacionais da Unicap, Thales Cavalcanti; o assessor de Política Externa do Parlamento Alemão, Hans Martin Sieg, e o assessor jurídico do Conselho Administrativo da Hidroelétrica Binacional Yaciretá (Paraguai-Argentina), o paraguaio Marco Caballero Giret. No comando dos trabalhos, o chefe do escritório da Fundação Konrad Adenauer no Brasil, Peter Fisher-Bollin.


CAIXA PRETA


O que é a Unasul?
>> A União das Nações Sul-Americanas, Unasul, é um bloco regional em construção que reúne os 12 países da América do Sul. Com uma agenda política, tem como objetivo aprofundar a integração da região.  Não substitui o Mercosul e pretende atuar paralelamente ao bloco comercial.


>> A partir da Unasul, espera-se avançar na integração física, energética, de telecomunicações e ainda nas áreas de ciência e de educação, além da adoção de mecanismos financeiros conjuntos.


>> A proposta da Unasul se dá numa conjuntura muito especial. A América do Sul é um dos principais centros produtores de energia e de alimentos do planeta. É aqui que estão a Amazônia e o pré-sal, sem esquecer o imenso potencial de Chile e Peru na mineração. O acordo para a criação do bloco foi assinado em 2008.


ECONOMIA REAL


Olhar para o Sul
joao_pachecoO embaixador da Delegação da União Europeia no Brasil, João Pacheco (foto), reforça o coro da necessidade de integração regional. "Acredito que, na América do Sul, haverá mais desenvolvimento com a integração do que sem ela", sentenciou. O diplomata português destacou que o bloco europeu está muito voltado para o Sul e isso inclui as Américas do Sul e Central, mais o Caribe. Pacheco também avaliou a importância do Mercosul - bloco de integração econômica mais avançada do que a integração política da Unasul. Aposta que fará seu percurso e não acha boa ideia a comparação entre a União Europeia e a união sulista. "São condições históricas diferentes... Eu acredito que o Mercosul pode avançar mais na infraestrutura interregional. Mas é fato que já avançou muito na redução de tensões na região", avalia. E, por último, adverte: "Ainda há altos e baixos no processo de integração tanto no Mercosul como na Unasul".


Das cúpulas para a sociedade
O chefe da Fundação Konrad Adenaeur no Brasil, Peter Fischer-Bollin, é categórico ao afirmar que nenhum processo de  integração poderá ser realizado com sucesso sem o envolvimento da sociedade. "A integração não pode ser feita nas cúpulas. Precisa envolver as comunidades, a academia, os jornalistas, demais formadores de opinião e o cidadão", reforça. Fisher-Bollin tem razão. Qualquer bloco só funcionará se toda a sociedade estiver envolvida. Isso porque a integração se dá na prática, no cotidiano das pessoas; não nos escritórios. "É necessário difundir os conceitos e provocar discussões”, observou.


Fischer-Bollin também expressou suas inquietações sobre a real intenção de o Brasil participar efetivamente da construção da Unasul. “O destino da Unasul depende do Brasil. Será que o Brasil tem interesse na integração? Está disposto a pagar os custos econômicos e sociais da integração?”, provocou o chefe da Fundação Konrad Adenaeur no Brasil. As respostas para as dúvidas de Fischer-Bollin só o tempo proverá.


TUDO É ECONOMIA
Na virada dos anos 1990 para os 2000, as três Américas preparavam-se para uma integração comercial que começaria a ser implantada em janeiro de 2001. Era a Área de Livre Comércio das Américas – a Alca –, cuja proposta era reunir 34 nações americanas ( à exceção de Cuba)  em torno de uma agenda essencialmente econômica. Assim como o Mercosul e bem diferente da Unasul.


As negociações da Alca começaram em 1994, durante os governos de Bill Clinton e Itamar Franco. O projeto tinha data marcada para passar dos gabinetes para a prática: dezembro de 2005. Mas a temática polêmica e um pano de fundo político levaram a Alca a fazer água (perdão, caro leitor-internauta, pela tentativa mal sucedida de trocadilho).


Os pontos em debate eram investimentos, serviços, acessos a mercados, agricultura, propriedade intelectual, políticas de competição, compras governamentais, resolução de disputas, trabalho e meio ambiente, subsídios, políticas anti-dumping e medidas compensatórias. Na esfera política, Cuba também era um gargalo considerável, potencializado pelo fato de, naquela época, não haver o processo de distensão que vemos hoje na questão do embargo comercial à ilha de Fidel.

Na passagem do bastão da presidência dos Estados Unidos  do democrata Clinton para o republicando e bélico George W. Bush; e de Franco para Fernando Henrique Cardoso, as negociações emperraram, foram para o limbo e inviabilizaram a integração comercial hemisférica. Muitos eram contra a Alca e suas razões eram essencialmente políticas. Predominava entre os contrários o discurso dos riscos à soberania nacional e de que os 33 países seriam quintal para os Estados Unidos.  Quem era a favor enxergava na integração uma via de desenvolvimento por osmose. Contra ou favor, a verdade é que a Alca beneficiaria muito o Nordeste brasileiro. Muito mais do que o longíquo (e sul-sudestino) Mercosul.  Mas isso é leite derramado e não importa se era com ou sem subsídio.


PENSAMENTO ECONÔMICO


“Os números, quando torturados, confessam tudo!”


>> O Pensamento Econômico de luxo, desta edição, é do doutor em Relações Internacionais, professor Thales Cavalcanti. A declaração foi dada durante palestra no seminário internacional sobre o projeto da Unasul, sexta-feira, em Recife. Poucas vezes, essa colunista ouviu definição tão perfeita sobre o papel dos números na economia nossa de cada dia.

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