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Sexta-feira, 18 de maio de 2012

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CENÁRIO: A verdade das ruas, pela janela do carro

Por Ana Cristina Cavalcante
Quarta, 09 de Novembro de 2011 10:04
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'O motor da economia brasileira ainda são a pobreza e a desigualdade'

 


 
‘E cadê a esmola que nós damos
Sem perceber que aquele abençoado
Poderia ter sido você
Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração’
 
Trecho de ‘Até quando esperar’, da Plebe Rude

 
desigualdade_socialOlhar as ruas de uma cidade grande é revelador. Pouco tempo dedicado à observação das pessoas que movimentam a metrópole já é suficiente para diagnóstico socioeconômico dos mais precisos. Por isso, hoje, resolvi fazer esse exercício antes de escrever a Cenário. De bate-pronto, a conclusão cruel: não está tudo bem, não! O avanço do mercado, as melhores condições de consumo, mais emprego, melhoria da renda... É tudo real... E insuficiente.  Ainda.
 

Não se pode negar a imensa evolução dos últimos 15 anos, no Brasil. Saímos de duas décadas perdidas, onde demos nenhum passo para frente e muitos para trás. Neste pré-Natal de 2011, nossa moeda é forte; o Brasil oferece dinheiro ao FMI (o famigerado fundo que queríamos fora daqui, anos atrás); temos um colchão de reservas em dólares de causar inveja às economias do topo; podemos exibir o sonhado equilíbrio fiscal; e dispomos de um mercado interno cheio de demandas para serem atendidas.
 

Aí reside o nó brasileiro. Nossa imensa lacuna de qualidade de vida. O ritmo acelerado que garante fundamentos econômicos tão bons é, na verdade, a expressão da necessidade quase infinita (de tudo) do brasileiro que está nas ruas – e que muitos de nós só vê pela janela do carro, quando o trânsito está parado. O motor da economia brasileira ainda são a pobreza e a desigualdade. Não dá para negar que melhorou. E não vamos fazer isso porque seria uma distorção dos fatos. Mas também não dá para achar que já está tudo certo.
 

A insistente assimetria entre ricos e pobres surge como o sinal incontestável de que crescemos; mas não nos desenvolvemos. E, sob essa perspectiva, as diferenças não podem e não devem ser maquiadas pelas conquistas da excelente política econômica do Brasil, nos últimos tempos. Precisam ser tomadas como desafios urgentes da construção de uma nação boa para todos. É uma questão de justiça e de sobrevivência.
 

E tudo isso está logo ali... É preciso olhar para o lado de fora das nossas casas, escritórios, salas de aula; baixar o vidro dos automóveis protegidos com filme escuro. Se quiser ver mais nítido, vá um hospital da rede pública. Só assim vamos enxergar a economia das ruas. A verdade escancarada em cada esquina.
 
 
ECONOMIA REAL
 

Ponto G?
merkel_sarkozy_g20E outra cúpula dos países mais ricos do mundo fez água.  O encontro do G20 semana passada, na francesa Cannes, foi um retumbante fracasso. Não definiu estratégias eficientes de combate à crise; não achou saída para as dificuldades gregas; não arrecadou o 1  bilhão de euros para abastecer o Fundo Europeu de Estabilização Financeira; e não mostrou o caminho das pedras para a Itália não ser, amanhã, o que a Grécia é hoje.  Mas não pensem que a reunião não teve sua revelação bombástica. Teve, sim. E qual é? Simples, atento leitor-internauta: o mundo não tem líderes capazes de prover uma solução para o imenso gargalo econômico dos nossos dias. O declínio das hegemonias (leiam-se Estados Unidos e Europa), aliado ao jeito chinês de se fingir de morto quando é cobrado, estava estampado nos sorrisos amarelos de Barack Obama e David Cameron. Mais honestas eram as expressões de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, que abriram mão de qualquer manifestação de simpatia durante a cúpula. Sinal dos tempos.
 
 
 

O Brasil Império
george-papandreou1-agenciaestadoO premier da Grécia, George Papandreou, até conseguiu maioria apertadíssima no congresso de seu país – exigência mínima do sistema parlamentarista para um líder se manter no comando do governo. Mas seu desempenho pífio não permitiu que ele continuasse à frente do desgovernado caos grego (perdoem o trocadilho. Foi mais forte do que eu). Renunciou e, até o fechamento da Coluna, ainda não tinha substituto. O mais cotado é o ministro da área econômica, Evangelos Venizelos. A grande novidade é que o ainda ministro disse, no final da semana passada, que tem conversado com representantes do governo brasileiro sobre a participação do País no processo grego de privatização. A se confirmar, o Brasil estenderá os domínios de seu império ao berço da civilização ocidental. É... vivemos para ver.
 

 

 

Por falar nisso...
O magnata e dublê de primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, afirmou na tarde desta terça-feira (8) que renunciará ao cargo. Mas só depois da aplicação das medidas de austeridade para reduzir o déficit público do país, exigidas pela União Europeia. À imprensa internacional, Berlusconi disse: “Depois da aprovação da Lei de Estabilidade, apresentarei minha demissão, de modo que o chefe de Estado possa abrir as consultas e decidir sobre o futuro”.
 
 
Compartilhando...
Se você acha que o mercado imobiliário de Fortaleza está estagnado, reveja seus conceitos. É fato que o ritmo dos negócios está desacelerando para voltar a padrões mais naturais (e mais seguros). Movimento que não abala o imenso potencial de negócios locais. Só o calibra. Mas impressionantes mesmo são o senso empreendedor e a ousadia de alguns empresários locais.  Só que... sobre isso, a gente fala na próxima Coluna.
 
 
Cuba quase ‘libre’
Primeiro foi a liberação do empreendedorismo, com a demissão em massa de funcionários públicos. Depois, os carros que podem ser negociados – num movimento já chamado de a ‘incrível transformação de sucata em ouro’. Agora Raul Castro, irmão de Fidel e presidente de Cuba, liberou a compra e venda de casas  na ilha.  Ficou assim: por decreto, cada família poderá ter um imóvel na cidade e outro para fins de semana ou veraneio. Mas e o dinheiro para comprar a segunda residência vem de onde? Provavelmente, sairá do bolso ou da aplicação de algum parente de Miami. Não é segredo para ninguém que liquidez ou crédito não são fundamentos da economia cubana.
 

>> Ainda sobre de onde vem o dinheiro, já tem analista apostando que o governo pensa em emitir títulos (podres) para indenizar herdeiros das propriedades expropriadas pela Revolução de Sierra Maestra, nos anos 1950. Os papéis atrairiam investidores ao mercado imobiliário cubano, mesmo com baixa remuneração. Pouco? À primeira vista, pode até ser. Mas é assim que começa.
 

>> Aliás, somos mesmo privilegiados por vivermos um período histórico tão rico. A transição típica do fechamento de grandes ciclos é fascinante. Quem diria, 30 anos atrás, que veríamos a flexibilização do socialismo num de seus últimos redutos, na Terra. Mas não creiam, queridos leitores-internautas, em quem diz que assistimos à chegada triunfal da economia de mercado aos domínios castristas. Falta muito e esse processo ainda tem diversas (e difíceis) etapas. O que ninguém duvida é que as mudanças estão acontecendo. E sobre uma base preciosa proporcionada pelo socialismo às nações que o adotam. O sentimento de que uma sociedade justa é aquela que reconhece, em todas as suas esferas, que somos iguais. Apesar de todas as nossas diferenças.
 
 
TUDO É ECONOMIA
 

Nestes tempos em que a política mercadológica de algumas escolas está mais bem cotada que a ética, fica a dica. A Amazon oferece, para assinantes Prime, acesso gratuito aos livros virtuais do seu acervo. Mas o serviço só está disponível para quem tem o leitor digital Kindle. O cliente que paga a assinatura de US$ 80 por ano tem direito a pegar um livro emprestado por mês.  O modelo funcionará como uma biblioteca. E, como forma de garantir uma prateleira cheia e diversificada, a Amazon declara ter acordos com as editoras para incluir os títulos no novo modelo.
 

A empresa diz também que, em alguns casos, comprometeu-se a comprar um exemplar a cada vez que um dos assinantes "emprestar" o livro no sistema. Na prática, significa que a gigante do comércio virtual está comprando livros para oferecê-los de graça aos clientes. É verdade que trata-se de uma estratégia de reforço nas vendas do Kindle. Mas se aposta na disseminação da literatura, é muito bem-vinda. Afinal, os tablets podem até não substituir os livros, mas uma melhorada na imagem da galera que gosta de exibir seus gadgets... Ah, isso os tablets dão, sim.
 
 
PENSAMENTO ECONÔMICO
 

dilma_g20“Não tenho a menor intenção de fazer contribuição direta ao Fundo de Estabilização Europeu. E por que que eu não tenho? Eu não tenho porque nem eles [os europeus] têm! Por que nós teríamos?"
 

O Pensamento Econômico da semana não poderia ser outro.  A declaração de Dilma Rousseff, presidenta do Brasil, na reunião do G20,ao explicar suas razões para ser contra a doação para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (cuja sigla em inglês é EFSF) é emblemática da divisão do poder mundial, neste século 21. De quebra, ainda faz lembrar o verborrágico antecessor que costuma arrancar risos, aplausos e caras azedas onde quer que vá.

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