Fernando Autran analisa questões econômicas e políticas que acompanham a história mundial
Por Fernando Autran
“Que vocês os comam, me parece horrível, mas não me surpreende tanto que vocês os matem.” (Hans Staden aos Tupinambás, que praticavam o canibalismo ritual dos seus inimigos)
Desde o desmoronamento da União Soviética que ouço uma ladainha sobre o silêncio dos intelectuais de esquerda, como se para eles o modelo soviético fosse uma referência positiva. E surgiram os chavões de fim de jogo, quando na verdade o jogo mal havia começado. Até hoje, há quem diga que esse negócio de esquerda e direita é coisa do passado, que as pessoas são de esquerda apenas na juventude e coisa e tal. Ouvi essas bobagens ainda ontem! Ora, que o pensamento hegemônico transborde esse discurso nas revistas conservadoras e nos grandes jornais é compreensível. Creio, porém, não ser uma perda de tempo o exercício do contraditório em ambientes de menor indigência do pensamento. Então, lá vai.
Atualmente, são muitos e diversos os espaços onde o debate de ideias acontece com intensidade. Em revistas especializadas, livros, encontros e fóruns analisa-se as alternativas de mudança diante de um mundo que não está perfeito e acabado. Ninguém está parado, e pensa-se o mundo em espaços apropriados e com serenidade. A análise é contemporânea, com o olhar sobre todos os tempos. E em relação à modernidade do debate, cabe aqui lembrar a década de 1990, quando o pensamento dito único fazia-se presente nas academias e nos bares. Praticava-se então com mais vigor a velha prática de descredenciar quem diz, ao invés de questionar o que é dito. As acusações assumiam a forma de peremptórias classificações: jurássico e retrógrado eram as preferidas. Lembro que sempre respondi sem concessões, radicalizando a resposta e assumindo ser anterior aos dinossauros, ou mesmo à primeira ameba.
Para mostrar o quanto eu era atrasado, citava Goethe, na parte do seu mais famoso livro em que Mefistófeles apresenta-se diante de Fausto e, perguntado, diz quem é: “Sou parte da parte que existia antes do início de tudo. Sou parte da escuridão que gerou a maravilhosa luz.”. Creio que ser mais retrógrado do que isso é impossível.
Nós, pensadores de esquerda de todos os tempos e lugares, somos contra o pensamento hegemônico, seus fundamentos, mitos e engodos. Estamos nos lixando para o bombardeio da sua propaganda. O discurso mais intenso, é claro, situa-se no campo da política econômica. Os grupos de maior poder econômico responsabilizam um suposto populismo dos programas sociais pela não elevação da poupança interna, quando a principal causa da insuficiência da poupança é exatamente o padrão de consumo desses grupos. A concentração de renda exacerba as formas de consumo, o que aumenta as exigências de investimento e reduz a capacidade de poupança.
O comportamento colonizado das elites dos países subdesenvolvidos agrava ainda mais este problema. No caso do Brasil, onde é brutal a desigualdade, existem pessoas que consomem em um único mês um valor monetário superior ao que um trabalhador de salário médio consumirá durante toda sua vida. E o pior é que os produtos consumidos são predatórios, desnecessários, além de exigirem capitalização elevada. A tecnologia que foi desenvolvida, além de requerer níveis muito altos de poupança e produtividade, está direcionada para a produção de bens que atendem padrões de consumo incompatíveis com a renda da população.
Em suma, na conhecida opção canhão ou manteiga, escolheram o canhão. Fecha-se assim o círculo perverso: o luxo produz a miséria, que produz o luxo, que produz a miséria... E não é fácil modificar o perfil da renda, reduzir o consumo dos grupos de maior poder econômico e reorientar a produção e os investimentos para os bens de consumo de massa. A luta é política, passa por uma mudança na correlação de forças hoje existente.
Na longa duração da História, a miséria que existe hoje, principalmente se for considerado o fato de que ela ocorre simultaneamente aos padrões de consumo que o mundo assiste e aplaude com tanta indiferença, é um anacronismo histórico. Isto sim, é jurássico. Celso Furtado apontou com precisão a diferença que existe entre subdesenvolvimento e pré-desenvolvimento. O historicismo das academias hegemônicas não leva em conta que, durante o período do seu desenvolvimento, os países hoje desenvolvidos não conviveram com outros países já então desenvolvidos.
Por isso pregam a repetição, fechando a porta para a análise de outras possibilidades históricas. Se a História acontece através de transformações constantes na maneira de produzir e viver, o texto e o teatro não podem ser sempre os mesmos. Hoje, o cenário da civilização pós-industrial é o da coexistência de grupos humanos em estágios de desenvolvimento tão diferentes que só mesmo um pensador liberal é ainda capaz de propor que se siga os passos de algum “irmão” bem sucedido. A História nunca se repete, embora o paradigma da elite brasileira ainda seja os Estados Unidos, segundo a concepção schumpeteriana.
Há uma constante e enfadonha contraposição às propostas de combate à desigualdade. Os arrazoados são pretensamente técnicos, ou seja, revestem-se de discurso teórico. O principal argumento assenta-se num elaborado positivismo acadêmico segundo o qual a ciência, por não ser normativa, deve evitar a contaminação com juízos de valor. Usa-se a máxima de que o mundo é o que é e não o que a gente gostaria que ele fosse. Ora, não existe ciência pura, assim como não existe arte pura. A rigor, não existe nada puro.
Os sistemas são totalizantes, abarcam todos os aspectos da vida coletiva. Saúde, educação, habitação, transporte, informação, acesso à justiça, representação política, enfim, tudo que faz parte do nosso dia a dia reflete uma determinada estrutura de propriedade e poder. Por que então a ciência ficaria de fora? O ser humano descobre, estabelece relações de causalidade, elabora pensamentos e conceitos. A partir de suas descobertas, ele inventa. E depois produz, com base em suas invenções.
Mas todo esse processo tem uma inevitável relação de dependência com a estrutura de poder existente em cada sociedade e em cada momento histórico. Atualmente, o conhecimento é concebido como um produto igual aos demais, no seio de um modelo de produção e consumo direcionados a poucos produtores e consumidores. Para horror dos que abraçam o pensamento hegemônico, não resisto à tentação de cometer aqui a heresia de citar (Ai, meu Deus, logo ele!) Karl Marx: “A teoria só se concretiza num povo na medida em que é a realização das suas necessidades.”
Toda opção epistemológica contrária à produção e ao consumo de um conhecimento que não atenda aos interesses do grupo de maior poder econômico é combatida com rigor. O discurso da modernização conservadora continua, mercê da crise econômica atual e do questionamento sobre os desígnios do mercado. Também continua a pregação contra o Estado perdulário e interventor, muito embora ele seja convocado (a convocação decorre da apropriação) para salvar bancos falidos e socializar prejuízos.
O discurso é ideológico, de crença no salvacionismo tecnológico e no darwinismo social. Segundo este discurso, não existe mais ideologia e o mercado, apesar de tudo, ainda se encarregará de levar todos ao paraíso. No caso do Brasil, o ataque ao Estado desdobra-se na mídia conservadora sob várias formas, entre elas a demonização da classe política.
O reducionismo do pensamento hegemônico, mais do que o fim das ideologias, decretou o fim da História. Assim, a análise das alternativas construídas no passado continua a receber o mesmo combate ideológico que a construção de pensamentos alternativos para o futuro. Mas será que não existe um ismo nessa proclamação do fim dos ismos? O nominalismo, aqui definido como a negação da sistematização do pensamento, é árvore que só dá um fruto: pensamentos soltos e desconexos, do tipo autoajuda.
Todavia, contraditoriamente, ele não deixa de ser uma concepção conclusiva, segundo a qual o passado seria tão somente uma sucessão de acontecimentos heróicos e o futuro uma simples sucessão de acontecimentos que o mercado irá ensejar. Por este tortuoso caminho, a ideologia que preconiza o fim das ideologias pretende eliminar o passado, o futuro e a própria História.
A humanidade não caminha numa esteira de ginástica. Sua trajetória é feita de erros e acertos cometidos na vida quotidiana dos seus membros. Mas é feita, com ação e pensamento. Somos caminhantes, povoamos a terra caminhando. E a História humana, apesar da nossa pressa, é de longa duração. Talvez por isso a gente viva misturando postulados universais (que também são de longa duração) com opções de curto prazo, ou ainda com a aparente ausência delas. Pode-se mesmo ter a ilusão de que a História acabou por enquanto, mas isto é apenas uma ilusão. Um poeta que se assumiu gauche na vida, Carlos Drummond de Andrade, indagou: “Eterno, mas até quando?” .
Erra quem diz que estamos parados ou recolhidos. O mundo gira, e amanhã é outro dia.
Fernando Autran (
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