Por Redação
Sexta, 22 de Maio de 2009 15:39
Fernando Autran analisa questões econômicas e políticas que acompanham a história mundial
Por Fernando Autran
“De cova, e não de cava, aqui se trata.” (Goethe)
No mundo atual, não existe sociedade civil homogênea, especialmente num país desigual como o Brasil. Portanto, ao invés de uma abstrata opinião pública, existe aqui um número de opiniões públicas tão grandes quanto o dos diferentes grupos e classes sociais. Mesmo quando se trata de princípios e postulados gerais, que fazem parte do conjunto de crenças e valores da sociedade, persiste a diversidade de interesses e opiniões. E é a essa diversidade que a estrutura dos meios de comunicação se contrapõe. Na mão de poucos, são poucos os que decidem sobre a agenda dos assuntos a serem tratados. Também são poucos os que fazem a arbitragem das questões em conflito. Em suma, publica-se o que interessa a uns poucos, da maneira que interessa a esses poucos.
Além disso, há de se distinguir opiniões públicas de opinião publicada. As opiniões públicas, na maioria das vezes, não são publicadas. Da mesma maneira, a opinião publicada quase sempre não coincide com as opiniões públicas. E isto acontece porque, considerando-se a atual estrutura de propriedade dos meios de comunicação, a opinião publicada reflete, inevitavelmente, a opinião e os interesses de apenas um dos grupos que compõem a sociedade. Considere-se ainda que a completa ausência do contraditório, a escolha de uma única opinião e a seleção das questões que serão publicadas apontam para a prevalência de um grupo sobre os demais quanto ao uso dos meios de comunicação. E, embora muito se propague sobre o potencial libertário das novas configurações da mídia, a internet não conseguiu interferir na “liberdade de imprensa” exclusiva dos donos dos meios de comunicação e dos seus obedientes empregados. Até o momento, nada indica que seja possível enfrentar com êxito o bombardeio midiático das televisões e dos jornais (além das revistas marrons, tipo Veja). Se no mundo são poucas e grandes empresas que controlam a informação, aqui no Brasil os meios de comunicação pertencem a uma oligarquia que, diferentemente dos outros grupos que fazem parte da ampla e heterogênea sociedade brasileira, tem o exclusivo direito de defender seus interesses através da publicação de suas opiniões. E elas, cabe repetir, são opiniões publicadas, não públicas.
O maior problema do Brasil é a desigualdade social. Fazendo-se uso de um velho instrumento de manipulação da mídia nativa, a repetição (mensalão, mensalão, mensalão, apagão, apagão, apagão), afirme-se diversas vezes: o maior problema do Brasil é a desigualdade social, o maior problema do Brasil é a desigualdade social, o maior problema do Brasil é a desigualdade social. A desigualdade social é a mãe e o pai da fome, da precariedade da saúde e educação, do fluxo migratório do campo para as cidades, da falta de habitação e transporte, da violência que aterroriza a classe média e mata os pobres, da seletividade da justiça, da ausência de representação política, da impossibilidade de democracia, da explosão das favelas, do comércio de sexo das crianças e dos adolescentes, da exploração do trabalho infantil, enfim, de todos os graves problemas que atormentam a sociedade brasileira contemporânea. Entretanto, tratar da desigualdade social e de suas causas nos meios de comunicação é um sonho impossível. Pautar um assunto tão importante implicaria na análise das estruturas sociais anacrônicas do país. E essa análise traria com ela o reconhecimento de que o Brasil continua perseguindo um modelo de crescimento econômico injusto e cruel, um modelo que beneficia uma minoria privilegiada e condena milhares de pessoas à exclusão social e à violência da miséria.
Essas questões não são agendadas pela mídia porque contrariam os interesses dos seus donos. Neste momento, eles elegeram castelos e passeios aéreos como assuntos prioritários do Brasil! Dizendo-se legítima representante de uma suposta e abstrata opinião pública, a mídia escolhe seus assuntos de acordo com seus interesses e distancia-se dos grupos que tem a pretensão de catequizar. O problema é de pauta: o assunto da mídia é um, o da população é outro. Sua pregação encontra guarida apenas num pequeno segmento da classe média conservadora e nos grupos de maior poder econômico, justamente aqueles que já expressavam as mesmas opiniões publicadas por ela e já votavam nos mesmos candidatos que, sem a menor parcimônia, ela procura eleger. E depois fica sem saber por que perde eleições.
Com a posse do presidente Lula, a classe dominante e seus meios de comunicação decidiram ressuscitar o Clube da Lanterna e a Banda de Música da UDN. A indignação, naturalmente, é seletiva: cinco séculos de corrupção são devidamente esquecidos e todas as mazelas do país começaram com o atual governo. Além do denuncismo seletivo, os mecanismos de manipulação são utilizados com intensidade e sem pudor: os direitos civis (jamais os direitos sociais e econômicos) são alardeados como condição bastante para a existência da democracia; mistificam a existência de uma democracia sem povo, num país onde um morto de fome é convocado para eleger representantes que não o representam; cânones e mitos superficiais são criados; bolas da vez são escolhidas; políticos e movimentos sociais são demonizados; manuais de redação e princípios éticos são usados como argumentos de defesa contra a total e escandalosa falta de ética; prepotência e arrogância juntam-se à rápida e irresponsável destruição da imagem das pessoas; classificações e acusações procuram questionar quem diz, ao invés do que é dito; suposições são transformadas em verdades; privacidade e respeito são ignorados. E nada disso pode ser contestado, em nome de uma falsa liberdade de imprensa e de uma abstrata opinião pública.
Mas engana-se quem pensa que todas essas distorções fazem parte de um plano maquiavélico, conspiratório. Trata-se apenas de uma estrutura de poder e de propriedade que se reflete em todos os aspectos da vida coletiva. O problema é estrutural, faz parte de uma agenda prioritária que os grupos de maior poder econômico não permitem que entre em discussão. Trata-se de posse, de propriedade dos meios de comunicação, mas a apropriação da informação faz parte de um sistema de apropriação geral: fauna, flora, água, recursos naturais, terra urbana e rural, Estado, universidades, corações e mentes, tudo enfim faz parte do butim. E é sobre esta rapinagem que eles não querem discutir.
Onde é possível tratar desses assuntos? A bola da vez seria o desemprego. Depois, no lugar do castelo do deputado, viria a bola da Reforma Tributária. O problema dos municípios pequenos e pobres que estão bancando o IPI da indústria automobilística seria a bola seguinte. Reformão, Reformão, Reformão para a bola da Reforma Agrária. Bancão, Bancão, Bancão para a bola dos juros e taxas de serviços dos bancos. Libertão, Libertão, Libertão para a bola da liberdade de imprensa. Afirme-se aqui que a oligarquia da mídia tem o direito de expor sua visão do mundo e apresentar propostas de manutenção do status quo. Por mais incrível que possa parecer, há quem pense que o mundo está perfeito e acabado, que a injustiça social e a miséria são inevitáveis. Da mesma maneira que existem projetos de mudança, existem projetos de conservação, este não é o problema. O que está errado é o fato de apenas ela, a oligarquia, ter o direito de defender seus interesses e suas opiniões. Liberdade de imprensa não significa liberdade de a oligarquia da mídia e seus jagunços dizerem o que lhes interessa sem que outros grupos sociais tenham o mesmo direito, no mesmo espaço e com igual intensidade.
Nesta parada do trem, fechando-se previamente a porta a um eventual questionamento de algum leitor mais atento, cabe a pergunta: ora, se a mídia está tão distante da maioria da população, por que então suas manipulações incomodam tanto? Além daquele negócio de água mole em pedra dura, o problema é que os gestores das instituições se encontram irremediavelmente vulneráveis aos bombardeios midiáticos. Por serem pessoas públicas, não podem deixar de responder às questões publicadas e de dar a elas o tratamento de assunto público. Não se pode tratar com descaso a população, mesmo que isto signifique ficar refém da voracidade de uma mídia que não tem nenhuma ética. E essa situação interfere na seleção de prioridades do país, fazendo com que as questões mais importantes deixem de ser discutidas. Tome-se como exemplo a PEC 233/2008, que trata da Reforma Tributária. Trata-se de uma questão que afeta a vida de milhares de pessoas, mas não se fala disso.
É claro que o problema não se resume ao agendamento feito pela mídia, mas a luta política fica ainda mais assimétrica quando os assuntos de interesse da população não são sequer pautados. Passagens aéreas de deputados e uma penca de diretores no Senado são questões da maior seriedade, mas não influenciam a vida quotidiana das pessoas com a mesma intensidade que uma Emenda Constitucional sobre impostos. A mídia sabe disso. No entanto, seus interesses são outros. E estão muito distantes da luta por um país melhor para todos.
Fernando Autran é escritor. (
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