O problema da violência não será resolvido com ação policial, mesmo que ela seja desenvolvida em combinação com políticas assistenciais. Estas atividades, diante da complexidade e das questões estruturais do problema, podem ser classificadas como de redução de risco: ajudam, são necessárias, mas não resolvem.
Constata-se, inclusive, que a ineficiência das instituições diretamente relacionadas com a segurança pública, principalmente a polícia e o sistema judiciário, é responsável tanto pela sensação de impunidade quanto pela simplificação de diagnósticos e propostas de solução do problema. Por conta disso, a eficiência dessas instituições passa a ser compreendida como o único objetivo a ser perseguido por uma sociedade apavorada com o crescimento da violência.
O justo anseio de punição dos criminosos, então, é erradamente classificado como uma contraposição à defesa de direitos fundamentais ao sistema democrático. A entrada do componente político e ideológico radicaliza o discurso e cristaliza certezas simplificadoras e reducionistas. Por essa via, são acusados de fascistas os que exigem eficiência dessas instituições e de esquerdistas defensores de bandidos os que cobram respeito às leis inerentes a uma democracia. A luta política existe, mas a construção de diferentes certezas não tem o poder de eliminar fatos e situações cuja veracidade independe dos interesses dos construtores.
A raiz do problema da violência é forte, antiga, e tem “longa duração”. Desenvolve-se há muito tempo, mas cresceu tanto nas últimas décadas que seu corte passou a ser visto como um sonho impossível acalentado por quixotescas figuras medievais. No entanto, com o empréstimo das palavras de Hamlet e sem dar maior importância ao discurso modernoso de quem acredita que a História acabou, afirmo que o mundo não é “um jardim abandonado” que “nos faz preferir suportar os males que já temos”, em vez de combatê-los. O mundo pertence a todos os seres existentes, o que faz de todos nós soldados responsáveis por sua maravilhosa existência.
O mal que precisa ser cortado pela raiz é a explosão da miséria. Atualmente, a renda está de tal maneira concentrada que mais de um terço da população mundial se encontra em situação de exclusão social absoluta. Concentrados em favelas que se transformaram em eficientes depósitos de lixo urbano, estes seres humanos compõem um amplo aglomerado de rejeitados sociais que sobrevivem sem acesso à saúde, educação, justiça e segurança. A total ausência de direitos sociais e econômicos transforma em piada de péssimo gosto o argumento de que eles, por terem assegurado o direito civil da “livre escolha” de seus supostos representantes, vivem em uma democracia. O pensamento requer clareza: não existe democracia em uma sociedade que condena seus membros à miséria e à morte precoce.
A humanidade jamais experimentou uma situação de concentração de renda e de desigualdade social tão violenta quanto a atual. Esta estrutura de propriedade altamente concentrada trouxe consigo a impossibilidade, certamente sistêmica, de serem oferecidos padrões de sobrevivência socialmente aceitáveis a todos os seres humanos. Assim, com a indispensável ajuda de teorias econômicas e morais, morre-se de indigência na civilização da opulência. Nunca, em tempo algum, o homem produziu tanta riqueza e tanta miséria, tanto luxo e tanta privação. As distâncias são tão grandes que já não é mais possível minimizar o desequilíbrio provocado por esta estrutura através dos tradicionais e desumanos ajustamentos realizados em diversos períodos da história: colonizações, guerras, fomes, epidemias, fluxos migratórios de refugiados, ocupações militares, manipulação da informação, confinamento e eliminação dos excluídos. Nos dias de hoje, diante da complexidade das sociedades e do grau de desigualdade existente, matar seres humanos, de fome ou de bala, deixou de ser uma solução para a manutenção de privilégios. Sem embargo, basta sair à rua ou ler um jornal para perceber que todos estes mecanismos de dominação e conservação historicamente utilizados não têm conseguido, sequer, conter o crescimento dos problemas gerados por todo este caos social, quanto mais eliminá-los.
Até o fim do século XV, a humanidade estava dividida em várias civilizações e culturas distintas entre si. Cada uma delas apresentava suas próprias escolhas, sempre adequadas a realidades materiais também distintas e específicas. Internamente, essas sócioeconomias exibiam o caráter totalizante comum a todo e qualquer sistema, mas enfrentavam diferentes problemas e escolhiam seus próprios caminhos para a resolução de seus conflitos.
A existência de diversas formas de organização social e econômica fazia com que os problemas enfrentados em uma determinada região ou sociedade não se reproduzissem em escala, até mesmo porque as economias eram independentes. Foi apenas a partir da globalização provocada pelo desenvolvimento do capitalismo mercantil, no início do século XVI, que uma estrutura de propriedade crescentemente desigual se consolidou e se expandiu por todas as regiões, até chegar ao estágio atual de total interdependência e de elevada concentração de renda.
Os problemas fundamentais que a humanidade enfrenta atualmente são os mesmos que já se apresentavam para ela desde o seu início: manter a vida, assegurar a sobrevivência da espécie, conviver com o ambiente de uma maneira que facilite sua relação com o mesmo e dar um sentido a tudo que existe. Se neste conjunto de questões está presente todo o ciclo da vida humana, é fácil concluir que as melhores escolhas são aquelas que apresentam as respostas mais razoáveis, no plano das realidades modestas da vida material, a estes problemas.
E isto não está acontecendo. A rigor, embora o desenvolvimento da ciência tenha contribuído para a melhoria destes itens fundamentais, o que se constata é que a vida tem sido degradada, a natureza está sendo destruída e os valores de referência foram trucidados por um nominalismo cultural que dispersa e padroniza a informação e o pensamento. Favelização das cidades, violência rural e urbana, degradação da vida e do meio ambiente, propagação das drogas, crescimento do crime organizado, terrorismo (inclusive o de Estado), fragilização e desmantelamento das instituições de regulação social, exacerbação religiosa, analfabetismo eletrônico, alienação política e cultural, banalização do crime, monopólio e manipulação da informação, insensibilidade social e ausência de solidariedade compõem um quadro de desordem mundial que precisa ser combatido com esperança e indignação.
São muitas e justas as manifestações da sociedade sobre os reflexos da atual estrutura de propriedade na vida cotidiana.
Mas, infelizmente, a indignação tem sido seletiva, ficando de fora a denúncia contra a maior violência gerada por este sistema: a violência da miséria, da exclusão social, da condenação de uma enorme parcela da população mundial a condições inaceitáveis de vida. Crianças famintas, velhos desabrigados e jovens sem oportunidade merecem receber os mais barulhentos protestos, as maiores passeatas, as mais solidárias missas, os mais indignados editoriais.
No entanto, especialmente no Brasil de hoje, por um conjunto de fatores cuja análise não cabe aqui, praticamente todas as empresas de comunicação, juntamente com o segmento mais conservador da classe média (atualmente, este segmento é o mais vulnerável à influência da mídia), têm limitado sua capacidade de mobilização ao problema da violência urbana.
Este justo exercício de cidadania, legitimado pelo brutal cotidiano de tragédias e sofrimentos irreparáveis que se abateu sobre o país, é um eficaz instrumento de pressão sobre os governos para que sejam adotadas políticas públicas eficazes de combate à violência, mas representa apenas uma das muitas lutas que pedem participação. Aliás, a própria indiferença com que se olha a miséria de seres humanos já é, por si só, uma violência merecedora de caminhadas e camisetas. E ninguém precisa ter os cem olhos de Argus para perceber que a violência maior é a inaceitável injustiça social que se espalhou pelo mundo como se fosse uma pandemia.
O mundo mudou, constata-se sempre. Os grandes acontecimentos, no entanto, decorrem da repetição de pequenos fatos que se transformam lentamente, dialeticamente, quase preguiçosamente. Há inclusive quem conclua, diante da certeza de que não se muda o mundo da noite para o dia, que a história tem uma dinâmica própria, um percurso inexorável e independente. Mas a verdade é que estes pequenos fatos formam realidades em cadeia, refletem uma ordenação estrutural, definem permanência, duram.
Estas seqüências, estas braudelianas “longas durações” compõem as estruturas do cotidiano, a vida material submetida a transformações lentas e fragmentárias que vão se somando, se somando, até que um dia rebentam. Que se tenha em mente o seguinte: rebentam, mais cedo ou mais tarde. O curso da história não será interrompido por discursos de conservação ou por indignações seletivas. A história não acabou, está só começando, por mais que sua lentidão aponte para um copo que ainda não está cheio, por mais que esta bárbara e violenta exclusão ainda não seja a gota d’água.